11 de dezembro de 2015

Conto: Quase tarde demais

O céu encoberto por nuvens acizentadas anunciava a chegada da tempestade. Aos poucos, gotas começavam a cair, as lágrimas em seus olhos espelhando o pingar da chuva. O vento aumentava violentamente, equiparando-se à respiração pesada. Quando, ao longe, os trovões surgiram, seus soluços tornaram-se constantes, seus sentimentos ritmados ao mau tempo. 
Os óculos de armação azul-escura tinham as lentes ofuscadas pelos respingos, impedindo os olhos de enxergarem totalmente. Com a energia da área central da cidade extinta, nem os semáforos funcionavam. À procura de um abrigo que não estivesse lotado, optou por atravessar a rua. O táxi, que vinha em alta velocidade, freou bruscamente, em vão. Foi tarde demais. 
No meio da principal avenida da cidade, jazia desmaiado o corpo da garota. A mochila, totalmente molhada, ao ser revistada, revelou a identidade da menina acidentada. Não aparentava possuir, porém, telefone ou forma de contato com ninguém. Depois de revirados todos os materiais da escola, foi encontrado um número de celular, anotado em uma folha de caderno amassada. Quem quer que fosse o dono do número, deveria conhecer a garota. Imediatamente, tentaram contatar a pessoa, sem sucesso algum. Enquanto isso, curiosos, ignorando a chuva, observavam a cena, ansiosos para saber o que estava acontecendo.
Havia senhoras perdendo seus ônibus para acompanhar tudo de perto; alguns comerciantes tentavam enxergar para além dos vidros embaçados dos estabelecimentos; diversos apressados gastaram um minuto de seu tempo para fotografar a cena. Poucos, no entanto, demonstravam estar dispostos a ajudar. Era incrível como um acidente tão corriqueiro parava tanta gente apenas por curiosidade.
Um garoto que corria apressado tropeçou enquanto tentava passar por entre os curiosos. Ao avistar a figura deitada no meio da rua, aparentemente desmaiada, paralisou. Não podia ser quem estava pensando. Mas era, percebeu. Por mais inacreditável que fosse, era ela ali. 
A multidão trocou o foco do olhar assim que ouviu o grito assustado do garoto, que corria para o meio da avenida, falando algo incompreensível. No momento  seguinte, já segurava forte as mãos da menina, beijando seu rosto, sussurrando seu nome incansavelmente. 
Foi então que ouviu algo, não mais que um murmúrio, saindo da boca da menina. Ainda podia salvá-la, ainda havia tempo de se desculpar e se entender com ela. Não seria fácil, visto que ele culpava-se pelo acontecido. Mas, ao ver a garota inconsciente, teve vontade de estar em seu lugar, de sentir a dor que ela sentia. Esperava que não fosse tarde demais para reconhecer sua paixão.

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