Estava eu na sacada do quarto, olhando o sol de pôr por trás das árvores. Sozinha em casa, ouvia até mesmo o barulho da porta da casa ao lado abrindo e fechando. Ao ouvir o toque do telefone, ponderei se não estava confundindo com o do vizinho, mas acabei decidindo por verificar.
Era o telefone fixo, que raramente tocava. Verifiquei o número, esperando que desse alguma pista de quem estaria do outro lado da linha. Não deu. Quem quer que fosse, provavelmente não queria falar comigo. Atendi mesmo assim, a voz relutante.
- Alô?! - Sempre achei essa saudação estranha, mas não podia começar dando "oi" a um suposto desconhecido. Tudo bem que isso era, na verdade, mais uma dessas manias minhas que ninguém entendia. Uma voz desconhecida começou a falar, e me fez voltar a prestar atenção no telefone.
- Boa tarde! Aqui quem fala é seu amor. - O quê? Será que minha mãe estava...Não, ela teria sido mais discreta. Então só podia ser engano.
- Com quem gostaria de falar?
- Contigo, menina. - É, engano meu, só se fosse. Quem era aquele desconhecido me chamando de amor? Comecei a ficar com medo e imaginei mil e uma histórias diferentes. Me vi trancada sozinha num porão, sem comer nem beber; me vi amarrada no banheiro, sem reação nenhuma; me vi nas manchetes dos jornais locais; me vi... - Ei, responde!
- Ah. Mas eu não tenho amor nenhum... - E não tenho mesmo. Todo amor que eu tinha foi evaporando com o tempo. Agora eu era uma garota puramente fria e distante.
-Tem sim. Pensa em alguém importante pra ti. - Eu deveria desligar. Eu deveria desligar. Eu deveria desligar. Mas é claro que, como sempre, a curiosidade falou mais alto. Eu estava prestes a entrar numa fria, no entanto, precisava continuar com aquilo. Deixar coisas inacabadas não era bem o meu forte.
- Pensei. - Se era pra entrar no jogo, então eu ia entrar. Essa voz estranha do outro lado da linha não ia me convencer que parte de mim era feita de amor, eu que iria convencê-la do contrário.
- Muito bem. Sabia que você não ia desistir. Vamos começar devagar. Você aguentaria passar um mês sem falar com essa pessoa? - Incrivelmente convencido! E com a voz absurdamente séria. E eu, por um motivo qualquer, resolvi ser sincera.
- Não sei. Talvez. - Refleti antes de responder, mas eu realmente não sabia. Sentiria saudade, é claro, mas acho que aguentaria.
- Tá, vamos continuar. Você se vê nos melhores momentos dessa pessoa, e ela está presente nos seus? - Nem precisei pensar. Respondi por puro impulso.
- Em alguns, sim. - Eu havia acabado de admitir - para alguém que estava zoando comigo - que eu tinha "melhores momentos"! Agora não adiantava tentar consertar.
- Certo. Mais uma, então: Você se vê perdendo essa pessoa pra sempre?
- Tipo como? Morte? - Mesmo eu acabei me surpreendendo com a pergunta.
- Aqui quem responde é você. Mas acho que entendeu bem a pergunta. Morte também, mas discutir e nunca mais ver, sabendo que está viva...
- Se a pessoa é importante, é óbvio que eu queira ela por perto de mim, certo? Não quero perdê-la nunca, nós nunca queremos perder quem nos faz bem. - Tudo bem. Chegou a hora de admitir que, mesmo incomodada, eu estava gostando de conversar com a voz. Só um pouquinho.
- Ahá! Eu sabia... Última pergunta, então... - Obviamente, interrompo a voz.
- Sabia do quê?
- Nada. E já disse que só eu faço perguntas. Última pergunta: Se essa pessoa estivesse sentindo muita dor, você se botaria no lugar dela, caso pudesse? - Pensei um pouco a respeito. Ponderei disfarçar a verdade, mas o impulso novamente foi maior que isso. Eu detestava admitir que...
- Sim. - Qual é, quem não faria isso?
- Sinto muito revelar que...
- Eu sabia! Falei que não tinha amor nenhum aqui dentro! - respondi triunfante, quase pulando.
- Calma, menina. O que eu estava dizendo é que você tem amor, sim! Você está conversando comigo, com seu amor. - Tá, agora eu tinha a comprovação de que estava falando com um maluco, que dizia ser meu amor.
- Ha ha, muito engraçado. - Falei irônica. - Nem sei porque perdi meu tempo com você.
- Tão ingênua... Só quero que lembre de uma coisa: as pessoas querem me conhecer. Dê uma chance, por favor. - Aquele maluco realmente acreditava no que estava falando? Impressionante!
- Não acredito em uma palavra do que você falou. Nunca mais ligue pra cá. Passar bem! - Desliguei na cara dele. Era só o que me faltava... "Oh, eu sou seu amor". Por isso eu nunca gostei de atender telefone em casa sozinha. Era cada maluco com tempo sobrando...
Mesmo sabendo que era tudo invenção, passei o resto do dia pensando naquela ligação, e nada conseguiu me distrair. Afinal, será que dentro de mim restava um pouco de amor?